sábado, 9 de junho de 2018

Síria: O Governo tem a “Responsabilidade de Proteger a sua População”

Síria: O Governo  tem a “Responsabilidade de Proteger a sua População”
30 de agosto de 2013


O governo do Presidente  Bashar Al Assad, eleito democraticamente,com o  apoio da sua população, e usando as prorrogativas que a sua Constituição lhe outorga, prossegue na sua luta de eliminar os grupos armados insurgentes de todos os redutos onde possam estar entrincheirados dentro da Síria.

Neste   início de semana, a ofensiva dirigiu-se  a  Daraya onde os rebeldes haviam estabelecido um grande arsenal dentro da cidade.¹
Situada à sudoeste da capital da Síria e próxima do aeroporto militar Mezzé, Daraya era um dos pilares de apoio à oposição na região metropolitana de Damasco.

Tropas do governo cercaram o bairro e criaram postos de controle, impedindo a entrada de alimentos e outros suprimentos, disseram moradores. A eletricidade, a internet e o serviço de telefone foram cortados.

No meio da semana, centenas de soldados sírios entraram na cidade, apoiados por tanques e caminhonetes com metralhadoras. Soldados e milicianos do governo inicialmente enfrentaram forte resistência do Exército Livre Sírio, mas retomaram o controle de Daraya na sexta. Sem sombra de dúvida, aconteceram um grande número de baixas de ambos os lados do conflito.

Mas o Exércíto Sírio conseguiu o controle daquele subúrbio e destruiu a base de operações táticas dos rebeldes. Foi o bastante para que as agências internacionais replicassem :  que “mais um massacre foi perpetrado pelo Exercito Sírio....” Inflama-se a tensão internacional e cada um dos atores emite a sua condenação.  

O aumento da pressão internacional à Síria acontece um dia após o Observatório Sírio de Direitos Humanos, grupo opositor sediado em Londres, denunciar , o que eles chamam de o “maior massacre dos 17 meses de confrontos na Síria.”

Segundo as diferentes fontes creditadas pela mídia ocidental temos números que variam de “ 13 corpos encontrados, a 30 mortos, a 34,mortos, a 70 em toda a Síria, ai vem os absurdos de 300, 330 e depois 500....As fontes são sempre: OSDH (Londres), Presidente do Conselho Nacional Sírio (Istambul) ou CCL que são os informantes locais da oposição,seguida sempre da desculpa:

“ O balanço é impossível de ser confirmado por fontes independentes pelas restrições impostas pelas autoridades sírias à imprensa.¹”

Esta última frase é totalmente falsa. Todo analista político, jornalista ou cidadão um pouco interessado no desenrolar dos acontecimentos na Síria tem como pesquisar  fontes alternativas confiáveis que indicamos abaixo.

Muitos destes twiteiros internacionais que seguimos, incluindo alguns moram na Síria, ou tem parentes lá, muitas vezes vão até ao necrotério para saber o número de mortos. Checam informações com os parentes das vítimas e nas cidades de origem do conflito.

Estes twiteiros, são jornalistas independentes, que questionam as notícias oficiais seja da oposição, seja do governo.  Muitos, como nós aqui no Brasil, tem um senso crítico e analisam todos os dados e chegam às próprias conclusões: Os dois lados do conflito estão extrapolando. Mas um dos lados é o governo legítimo, responsável por manter a segurança de seus cidadãos,  e o outro é o de gangues pagas para se infiltrar no meio do núcleo da população civil, para instaurar o caos no país e a insegurança em sua população.

Com isso não estou negando que exista sim uma oposição ao governo. Sim existe e é legítima, e considerada pelo Presidente Bashar Al Assad como legítima. Esta oposição ocupa hoje o ministério da Reconciliação Nacional, cujo ministro é Ali Haidar, que perdeu o seu filho assassinado por gangues da oposição mercenária, comprada e que presta um deserviço `a Síria e à sua população.

A responsabilidade por estas mortes é daqueles governos que apoiam uma oposição irresponsável, desagregada, que não tem projeto, não tem programa. É aquilo que chamo de oposição pela oposição, sem um plano de ação, sem metas, sem projetos. Uma oposição que se enfrenta entre si e rejeita um projeto laico para a Síria.

Querem uma oposição coesa? Os EUA há 7 anos financiam uma oposição e até hoje não conseguiram que este saco de gatos pudesse sentar á mesa e dialogar. O dinheiro gasto com os opositores no exterior, mais de 12 milhões de dólares, mostra o tipo de elementos nos quais eles apostaram.

Querem governar a Síria do exterior, dos EUA e da Europa! Ora, quem conhece o problema interno da Síria e o seu povo,  são aqueles que lá vivem e convivem.

Quem pagou e armou estas gangues para destruir a Síria deverá ser levado para o Tribunal Penal Internacional.

E esta lista de países é liderada por: EUA, OTAN, Turquia,Qatar e Arábia Saudita.

Eles são os responsáveis pelo banho de sangue no qual está imersa a Síria.

O Governo Sírio está chamando ao diálogo; a China está disposta a mediar este dialogo; o Irã está sediando a Reunião dos Países não Alinhados; e a Rússia está intimamente envolvida em encontrar uma solução para o conflito...
  
Em entrevista² concedida pelo Presidente Bashar Al Assad, e da qual foi veiculado um script³ , um pouco antes  de finalizar este artigo, diz que o Presidente:

“admitiu que seu governo ainda não venceu a batalha contra os rebeldes e que precisa de mais tempo.”...
 "Posso resumir em uma frase: avançamos, a situação no campo de batalha é melhor”
.Assad ainda comentou a ideia da criação de uma zona de segurança na Síria para receber os refugiados, que foi citada pelas potências ocidentais. Mas afirmou que a iniciativa não é realista.
 O presidente sírio ainda minimizou as deserções que abalaram o regime nos últimos meses, ao declarar que o país ficou "limpo" de pessoas desprovidas de patriotismo. 

¹- Folhapress
:²- Assista na integra na TV  ADDOUNIA :televisão privada da Síria, 
³-RESALE  EDITORIAL : em 29 de agosto de 2012.
- Land Destroyer ‏ @LandDestroyer (excelente site)
 Land Destroyer Report: Geopolitical analysis delivered from Southeast Asia. mirror  
         site:: http://landdestroyer.wordpress.com
         -Tom Feeley ‏ @tomfeeley(excelente site)      
Information Clearing House - News You Won't Find On CNN -
This website has been described by John     Pilger as having a wonderfully free rebellious spirit
- CounterPsyOps ‏ @CounterPsyOps(http://counterpsyops.com/ excelente)
 A new hole in the propaganda matrix
- WebsterGTarpley ‏ @WebsterGTarpley (Americano anti NWO - http://www.youtube.com/watch?v=GTOOxkZ-Dl4&noredirect=1      apóia o senador republicano RonPaul - que tem feito declarações fortíssimas contra os EUA, no que tange a Síria e Irã )
- Aziza ‏ @Aziza23(não sei se homem ou mulher, nem onde mora - uma das fontes mais valiosas de pesquisas de mídia que encontrei - muitos no Twitter tb o/a elogiam)
 All the news that's fit to print. All the opinions that aren't.... #Egypt #Syria

                                      S.Paulo.30 de agosto de 2012

*Claude Fahd Hajjar, Psicóloga,Psicanalista,pesquisadora de temas árabes autora do livro"Imigração Árabe 100 Anos de Reflexão",Vice Presidente de Fearab América.




V° centenário do encontro de duas culturas de Fearab América:Reminescências árabes na Europa dos descobrimentos

Por Claude Fahd Hajjar*

O legado do mundo árabe medieval à grande corrente da história da humanidade necessita de uma pesquisa minuciosa e de uma análise cuidadosa. Os trabalhos do V centenário do encontro de duas culturas têm como objetivo, iniciar o estudo deste tema e aprofundar o seu desenvolvimento para que venha a abranger não apenas a sua anônima contribuição à história do pensamento científico moderno.

Durante 700 anos, a língua árabe foi a depositária da memória cultural, científica, artística, filosófica e comercial da humanidade. Nenhum outro período histórico anterior a este conseguiu reunir por tanto tempo o saber e o conhecimento humano e servir de guardião e de transmissor do legado civilizador da humanidade. Da Ásia à Ásia menor, do norte da África e por toda a Europa, o Árabe esteve presente, recebeu e doou cultura e saber, assimilou conhecimento e os transmitiu.

Este trabalho tentará responder a três perguntas fundamentais:
  1. Por que coube ao mundo árabe medieval ser o depositário da herança científica e cultural do Mundo Antigo e ser o seu transmissor na Idade Média?
  2. Por que outros povos, e em especial o povo romano, não se ocuparam destas tarefas?
  3. Qual foi a real contribuição do Mundo Árabe Medieval à história do pensamento científico moderno?
Primeira questão: Por que coube ao mundo árabe medieval ser o depositário da herança científica e cultural do Mundo Antigo e ser o seu transmissor na Idade Média?

O primeiro fator que determinou e impulsionou a atividade científica do mundo Árabe medieval, foi o perfil psicológico do conquistador árabe da Península, isto é, o guerreiro, o desbravador, o lutador, características que se somaram à história pregressa da região da Síria milenar, cujo inconsciente coletivo carrega a amálgama do acervo cultural de diferentes povos, como o da Pérsia, da Índia, do Egito, e da Grécia antiga.

O segundo fator foi a própria religião Islâmica e o legado do Alcorão que estimulou o interesse científico, pois orienta os fiéis a observar o céu e a terra, para encontrar na natureza provas em favor da fé. A tradição Islâmica, não se cansa de elogiar a ciência.

Encontramos no “Hadisse” uma série de recomendações concernentes à medicina a remédios e à legitimidade de usá-los. Estas recomendações foram utilizadas pelos intelectuais árabes para justificarem sua atividade e alimentar sua sede de saber, investigar e assimilar novos conhecimentos, principalmente na primeira fase da expansão árabe onde cada nova região conquistada possuía segredos e mistérios a serem desvendados e nossos conhecimentos a serem apreendidos.

Outro fator, é ser o herdeiro da Grécia Antiga, o que constituí mais que um motivo de honra para a civilização do mundo Árabe Medieval – significa um alto nível de consciência de si e da aceitação de sua missão de mantendedores e de divulgadores da mentalidade e do patrimônio científico daquele povo.

Outro fator decisivo desse progresso científico foi a consciência e vontade na utilização da energia positiva que emanava deles, novos vencedores. Na busca da assimilação e do desenvolvimento de todo acervo científico e cultural da Grécia antiga.

O processo, a continuidade, a utilização da potência e da força do vencedor, a verdadeira consciência que homem e natureza devem ser estudados e compreendidos para forjarem um mundo melhor. Tanto o Estado Civil quanto o Estado religioso, aliados aos detentores do poder econômico, não mediram investimentos para atualizar, traduzir, divulgar, e desenvolver o pensamento científico da Grécia Antiga.

Segunda Questão: Por que outros povos, e em especial o povo Romano não se encarregou desta tarefa?

Considerações sobre algumas diferenças entre o Império Romano e o Império Árabe, no que diz respeito à ciência e filosofia.

O Império Romano se destacou pelas grandes conquistas, pela potência e extensão de seus domínios. Foi um construtor de marcos arquitetônicos de estílo inconfundível, nos legou monumentos importantes, estimulou as trocas comerciais, unificou interesses na África, no Mediterraneo e Oriente Próximo.

Foi um Império legislador, regendo a sociedade civil através da lei e do direito. A organização do estado e a representação democrática do povo através do Senado e das Câmaras livres foi instituída durante este Império.

A produção agrícola, o cultivo da terra, enfim toda a parte prática do cotidiano, o povo romano possuía e desenvolvia. Porém o imaginativo, o projetivo, o ideativo, o teórico, o científico, estes atributos faltaram àquele povo Romano.

Ciência e filosofia são áreas que necessitam dos atributos da reflexão, teorização, e projeção simbólica. Estas áreas necessitam de questionamentos e de indagações que transcendem o imediato. A especulação científica e filosófica requer a crença no amanhã, requer ainda uma capacidade de pensar e refletir o hoje possa nos conduzir a nova conquista no amanhã. A natureza prática e imediatista do povo Romano e de seus governantes, estava distante disto.

Quando o Império Árabe se expandiu até a Europa no século VIII, esta já vivia a Idade Média da história da civilização. A maior parte dos países hoje conhecidos e que formaram a Europa atual, iniciaram sua condição de Estados no final do século IX, como França e Alemanha.

A primeira fase da história Árabe muçulmana teve início em 654 e a duração de um século, este foi o período Omaíada cuja Capital Damascos, foi o centro político e econômico da época.

Foi com o declínio do poder de Damascos e a mudança da sede do poder para Bagdá, que a dinastia Omaíada mudou-se para a Espanha, onde desde 711 possuía já domínio e poder. Foram os Árabes da Síria, e sob a égide dos governantes Omaíadas que se tornaram senhores da África Setentrional e da Espanha.

Os Califas da Dinastia dos Abassídas dominaram a parte oriental do Mundo Islâmico durante os 500 anos seguintes.

No início do século IX, conforme Philip Hitty, “setenta e cinco anos após a fundação de Bagdad, o mundo que lia árabe conhecia os principais trabalhos filosóficos de Aristóteles, os mais importantes comentadores neoplatonicos e também as obras científicas persas e hindus...A influencia grega alcançou seu ponto mais alto no governo de Al Mahmun. As tendências racionalistas deste Califa levaram-no aos trabalhos filosóficos gregos, à procura de justificação para o seu ponto de vista, deque os textos religiosos devem concordar com o julgamento da razão....”

Para o filósofo francês Alexandre Koiré, “não basta saber grego para compreender Aristóteles ou Platão- eis aí um erro freqüente entre os filólogos clássicos-; é preciso, além disso, saber filosofia...”
“ Em 830, Al Mahmun estabeleceu em Bagdad sua famosa “Casa da Sabedoria” uma combinação de biblioteca, academia e escritório de traduções, que foi, sob vários aspectos, a instituição educacional mais importante desde a fundação do museu de Alexandria, na primeira metade do século III antes de cristo”.

Foi no período de Al Mahmun que foram traduzidas as obras de Galeno,Hipócrates e Dioscórides, Platão e Aristóteles. O brilhante tradutor Hunayan (Joanício - 809-873) traduziu para o Siríaco e para o Árabe, quase toda a produção científica de Galeno.

Os sete livros de anatomia deste autor, perdidos no original grego, foram felizmente preservados em árabe.

Para Hitty, “...tudo isto aconteceu numa época em que a Europa ignorava quase totalmente a ciência e o pensamento dos gregos. Pois, enquanto AL Rashid e Almahmun estavam estudando as filosofias grega e persa, seus contemporâneos do Ocidente, Carlos Magno e seus nobres, estavam engatinhando na arte de escrever os seus nomes”.

Para Koiré, “ A barbárie medieval, econômica e política, teve como origem... a ruptura de relações entre Oriente e Ocidente, entre o mundo latino e o mundo grego.
E é o mesmo movimento - a falta de relações com o oriente helênico - que produziu a barbárie intelectual do ocidente”.

Esta ruptura se deve à ausência e “indiferença quase total dos Romanos pela ciência e pela filosofia. Os Romanos se interessam pelas coisas práticas: a agricultura, o direito, a moral. Mas, por mais que procuremos, em toda a literatura latina clássica, uma obra científica digna desse nome, não a encontramos; muito menos uma obra filosófica. Encontraremos, Plínio, Seneca, Cícero ou Macrobino, porém nada que pudesse revelar um espírito de investigação e de ciência, um verdadeiro espírito da busca do saber. O mais surpreendente, é que nem as traduções do grego para o latim foram realizadas. Nem Platão, nem Aristóteles, nem Euclides, nem Arquimedes, jamais foram traduzidos para o latim, durante a época clássica.”

A retomada das relações entre oriente e ocidente foi realizada pelo mundo árabe medieval, que ao traduzir inúmeras obras do patrimônio universal, se fixou mais na herança helênica e manteve em língua árabe todo o saber do mundo antigo. A retomada de contato com o pensamento antigo, foi que impulsionou o desenvolvimento da filosofia medieval. Na Idade Média, o oriente não era mais grego, era árabe. “Assim, foram os árabes os mestres e educadores do ocidente latino”.

Terceira questão: ”Qual foi a real contribuição do mundo árabe medieval à História do Pensamento Científico moderno?”

Ao responder a esta questão, estarei desenvolvendo todo o percurso da trama de retomada das relações entre Oriente e Ocidente que foi realizada pelo Mundo Árabe Medieval.

Quando em754, os Abassidas tomaram o poder dos Omaíadas, o mundo árabe perdeu sua hegemonia. Construíu ainda a sua idade de ouro, porém 100 anos depois, teve início seu declínio, cujas conseqüências nós seus herdeiros, estamos até hoje pagando o tributo.

Se por um lado, a divergência Omaíada - Abassída foi negativa e letal para o mundo árabe em geral, ela ainda assim, pôde ser extremamente benéfica para o mundo ocidental.
A contribuição árabe oriental, isto é, a chamada idade de ouro da civilização árabe, foi desenvolvida pelo califado Abassída. Porém, foram os Omaíadas que transportaram a língua árabe com todo o acervo cultural da região Síria à Espanha.

O Império Árabe Ocidental, teve início na Espanha em 756, quando Abd Al Rahman I funda o emirado Omaíada de Córdoba. Para o Ocidente, a importância deste período.

É muito mais intensa, pois foi a partir da Espanha muçulmana que partiu a cultura árabe, interpretando a cultura cristã dos princípios da Idade Média e produzindo a civilização de hoje
A disputa de poder entre Abassídas e Omaíadas teve como aliado dos Abassídas Carlos Magno inimigo natural de Abd AL Rahman I, Emir da Espanha.

A disputa entre vizinhos, foi vencida pelo Emirado Árabe Ocidental, alcançando a primasia sobre Francos em uma batalha em 778.

Consolidado e pacificado o reino de, Abd Al Rahman I, passou a interessar-se pelas artes da paz, onde pode ser tão grande como a guerra.

Teve inicio aí a construção da Espanha:

- Embelezou as cidades sob o seu domínio;
- Construiu um aqueduto para fornecer água pura à capital.
- Iniciou a construção de uma muralha ao redor da cidade.
- Erigiu para si um palácio e um jardim similar ao palácio da Síria.
- Canalizou água para a sua residência, onde introduziu plantas exóticas como os pessegueiros e romaneiras. Importou palmeiras da Síria a quem mimava com ternos e nostálgicos versos.
- A grande mesquita de Córdoba foi inaugurada dois anos antes de sua morte, em 778- foi considerada o Santuário do Islamismo Ocidental.
- Construiu a ponte do “Guadaquivir” (O Grande Rio).

Abd Al Rahman I, diligentemente procurou unir em uma única nação árabe, sírios, berberes, numidas, hispano-árabes e godos. O início do movimento intelectual que fez da Espanha islamítica dos séculos IX ao XI, um dos grandes centros da cultura mundial, foi inaugurada por ele.

No século X, o califado Omaíada na Espanha, sob o poder de Abd Al Rahman chega ao seu apogeu. Córdoba passou a ser a cidade de maior cultura da Europa e, ao lado de Constantinopla e Bagdá, um dos três centros culturais do mundo.

-113 mil casas e 21 subúrbios;
-70 bibliotecas e inúmeras livrarias
-500 mil habitantes;
-700 mesquitas;
-300 casas de banho;
- quilômetros de ruas pavimentadas e iluminadas pelas luzes das casas que lhe davam acesso.

A Espanha deste período era um país prospero e rico e possuía:
- 13mil tecelões;
-Florescente indústria de couro; Know How que depois exportou para o Marrocos, França e Inglaterra.
- Teciam lã e seda. O bicho da seda foi trazido pelos mercadores árabes da China para a Espanha.
- Louças, utensílios em cobre e cerâmica eram produzidas em diferentes cidades espanholas.
-Ouro e prata eram extraídos em Jaer e Algarve.
-Ferro e cobre em Córdoba;
- Em Málaga, os Rubís.
- A arte da incrustração do aço e outros metais com o ouro e a prata e decorá-los com desenhos florais foi importada de Damasco.
-A agricultura foi estimulada por novos métodos trazidos da Ásia Menor;
-Cavaram canais, cultivaram vinhas e introduziram o arroz, o damasco, a romã,a laranja, a cana de açúcar, o algodão, o açafrão,..
- Sevilha importava, através de seu porto fluvial, tecidos e escravos, e exportava algodão, azeitonas e azeites.
-O serviço postal regular era privilégio do povo da Espanha.

O período de Al Hakam, sucessor de Abd Al Rahman III se notabilizou pela proteção à educação.
- Fundou 27 escolas livres em Córdoba.

 Ao dar um conceito liberal aos estudiosos, fez com que a Universidade de Córdoba ascender a uma proeminente posição em relação às demais instituições do mundo.

Estudantes cristãos e muçulmanos foram atraídos para estudar nela, não só da Espanha, mas de toda Europa, Ásia, e África.

Al Hakam ampliou a Mesquita que serviu de sede à Universidade e a enriqueceu com novos adornos, contratou professores orientais para ensinar nela, e destinou a eles verbas especiais para os salários.

A capital possuía uma grande biblioteca que foi enriquecida por AL Hakam, já que ele era um grande bibliófolo; seus agentes percorriam as livrarias de Alexandria, Damasco e Bagdad, com ordem de comprar e copiar manuscritos. Os livros reunidos chegaram a alcançar, segundo cálculos, 400 mil volumes.

O nível geral da cultura na Andaluzia era tão alto, nesta época, que um estudioso holandês, Doseg, chegou a declarar que “quase todos sabiam ler e escrever”.

Tudo isso acontecia enquanto a Europa cristã estava ainda adormecida.
Como já foi visto, enquanto o Califado Árabe Oriental se esmerava nas traduções das obras helênicas, persas e hindus seu rival, o califado Árabe Ocidental seguia o mesmo percurso e bebia da mesma fonte.

A retomada das relações entre Oriente e Ocidente se processou graças à luta do poder Árabe que pode favorecer tanto ao Oriente quanto ao Ocidente.

A Contribuição ao Ocidente

                                          “Conhecer é voltar-se para trás, é, por essência uma regressão ao infinito”. (Wilhelm Friedrich Nietzche)


Os portais das instituições educativas da Espanha muçulmana ostentavam uma inscrição favorita:

“O mundo é sustentado por quatro coisas apenas:
   a sabedoria dos sábios,
   a justiça do grande,
   as preces do justo e a
   coragem do bravo”.  (Hitty, 1948, pg.149)

Porém, nem a justiça, nem a fé, nem a coragem, foram as virtudes que mais impressionaram a Europa; mas sim, a sabedoria árabe, esta , impregnou o pensamento europeu por muitas vias.

“A Espanha maometana escreveu um dos capítulos mais brilhantes na história intelectual da Europa medieval”. (Hitty, 1948, pg 149)

Entre os séculos VIII e XIII, como já foi assinalado, os povos que falavam o árabe eram por todo o mundo os principais portadores da tocha da cultura e da civilização, os agentes da ciência e da filosofia antigas que foi por eles recuperados, aumentada e transmitida, possibilitando assim o renascimento na Europa Ocidental.

As primeiras universidades do mundo não foram as de Paris, Oxford, ou de Chartres; mas sim, as de Córdoba, Granada, Sevilha e Málaga. A Universidade de Córdoba incluía entre seus departamentos, os de astronomia, matemática e medicina, além de teologia e direito. O número de alunos alcançava os milhares e eram procedentes da Espanha, do norte da África e de outras regiões da Europa.

A biblioteca que atendia à Universidade de Córdoba chegou a possuir mais de 400.000 obras. Semelhante número de livros não poderia existir se não houvesse a fabricação de papel local, que entrou na Europa via a Espanha no século XII.

E foi no século XII que a Europa Latina viu florescer as primeiras cidades e com elas as primeiras universidades.

O que era a Europa naquele período?

Conforme Jacques Le Goff: “quando o Ocidente não faz mais do que exportar matéria prima – embora comece a despertar o desenvolvimento têxtil- os produtos raros, os objetos de valor vêm do Oriente, de Bizâncio, de Damasco, de Bagdad, de Córdoba.
Com as especiarias e a seda, os manuscritos trazem para o Ocidente a cultura greco –árabe ” (s/d pg.33).

“...os caçadores cristãos de manuscritos gregos e árabes desfraldaram as velas até Palermo, onde os reis normandos da Sicília e depois Frederico II,com sua chancelaria trilingue – grega, latina e árabe – animam a primeira corte italiana corte italiana renascentista, precipitam-se sobre Toledo, reconquistada aos infiéis em 1087, onde os tradutores cristãos puseram mão à obra, sob a proteção do Arcebispo Raimundo (1125-1151)”(s/d pg. 33/34 Le Goff).

“Os tradutores, eis os pioneiros deste renascimento. O Ocidente já não entende o grego; Abelardo lamenta-o e exorta as religiosas do Paracleto a preencherem essa lacuna, ultrapassando desta forma os homens no domínio da cultura”

“A língua científica é o Latim. Originais árabes, versões árabes de textos gregos, originais gregos, são, portanto, traduzidos quer por indivíduos isolados, quer... por equipes” ( s/d pg.34 Le Goff)”.
O que impulsiona o Ocidente cristão primitivo, a estudar o árabe e a traduzir o Alcorão?

A célebre equipe de Pedro, O Venerável, que traduziu o Alcorão, ficou conhecida e seu objetivo era estudar o pensamento islâmico para poder guerreá-lo.

Assim se expressa Le Goff “... Pedro, O Venerável foi o primeiro a conceber a idéia de combater, não no terreno militar, mas no terreno intelectual. Para recusar sua doutrina, é necessário conhecê – la – e esta reflexão, que nos parece de uma evidencia total, é uma audácia neste tempo de cruzada” (Le Goff- pg. 34- s/d).

“No poder humano de transmitir, por meios sociais, sua ciência e arte, reside o segredo da maior parte do que é nobre e duradouro na civilização do homen.”(Hitty, 1948)

Não foi a esta realidade que assistiram os herdeiros da Espanha muçulmana.

Após 2 de janeiro de 1942, data da queda de Granada, tem início uma campanha para a queima e anulação do vestígio Árabe- islâmico da Espanha. Granada foi o cenário de uma fogueira de manuscritos árabes.

Neste mesmo período, após a queda de Constantinopla, quando o Império Otomano assume o poder em todo o Oriente Árabe Sírio, a biblioteca de Damasco foi inteiramente queimada e seus livros e manuscritos todos se perderam.

Assim, permaneceu até os dias de hoje anônima a contribuição árabe à medicina, matemática, astronomia, geografia, ótica, filosofia....manteve-se viva e atuante até meados do século XVII e XVIII, através das obras e compêndios trazidos para o Latim e o inglês.

Na verdade, a contribuição européia à história da ciência teve início justamente com o início do declínio árabe, isto é, século XIV e XV.

Os últimos 500 anos, justamente aqueles que o V centenário do Encontro de duas Culturas comemora, e ao qual estamos dando nossa contribuição, foram os mais obscuros e deturpadores do conhecimento humano.

O conjunto de monarquias e reinos que veriam a formar a Europa atual, estavam vivendo o seu nascimento enquanto sociedades organizadas.

Não resta a menor dúvida de que as Cruzadas tiveram como resultado a anulação do traço árabe na Europa, e sua completa negação como presença significativa no desenvolvimento e na formação da Europa contemporranea, sem esquecer o papel do conhecimento científico árabe na era dos descobrimentos, que conduziram a Europa a uma expansão nunca antes imaginada.

Quem tentar encontrar um sinal da presença árabe na Europa, sua contribuição para o Ocidente, ou quem tente entender o que são ou que foram, encontra o deserto do saber- não há em nenhum livro escolar, a não ser recordações simbólicas. Os professores, na classe, falam do valor e da riqueza da cultura árabe. As pesquisas que se fazem são desgastantes, pois pesquisamos 20 livros para encontrar 10 frases. Os bons livros, quase sempre são obras raras e de difícil acesso.

Hoje podemos responder à pergunta:

Porque os intelectuais do mundo são todos simpáticos à causa árabe?

A resposta é simples: Estes intelectuais tem acesso a obras e livros que o grande público ou mesmo o estudante secundarista não tem acesso . O intelectual é um pesquisador e estudioso nato, pesquisa por conta própria e na busca da origem do fato ou do texto acaba por se chocar com o tabu, com o proibido e o escamoteado e para o amante do saber, isto é um grande êxito e se transforma em um novo desafio que o conduzirá a novos descobrimentos. Porém estes conhecimentos continuam encaixotados, pouco utilizados, e sem divulgação pois não trazem dividendos e não interessam a quem fugiu deles durante V séculos.

Leão Kossovitch, citando Nietsche, diz: “....Só há criação de valores aonde existem diferenças. É por isso que as forças conspiradoras guerreiam contra a criação... o criador é a quem mais odeiam: aquele que quebra tabus e antigos valores... a estes é que chamam de criminoso...crucificam a quem escreve novos valores em tábuas novas”.

São Paulo, agosto de 1991

Apresentado em espanhol, na Reunião de Fearab América -Damasco - Síria por ocasião do início das festividades do “ V°Centenário do encontro de duas culturas”.

*Claude Fahd Hajjar, psicóloga psicanalista, autora do livro" Imigração Árabe 100 anos de Reflexão"
Diretora de Cultura de Fearab América e Coordenadora do "Vº Centenário do Descobrimento da América- Encontro de Duas Culturas" - (1990-1992)



Palestina 2014:O massacre de Gaza e a mulher palestina


Por Claude Fahd Hajjar*

A estreita Faixa de Gaza de apenas 360km², onde vivem 2 milhões de palestinos, sobrevive aos massacres israelenses perpetrados indiscriminadamente contra crianças, mulheres e velhos.
Foi assim em 2008/2009, 2012 e agora, mais do mesmo, em 2014. O esporte preferido do Estado de Israel é massacrar palestinos. Estas agressões estão cada vez mais violentas e mais danosas à população e principalmente à mulher que é responsável pelo lar e pela manutenção da continuidade dentro do seio familiar.

A política do governo de Israel é indiferente com a população palestina. As mesmas políticas letais são aplicadas a homens, mulheres, meninos e meninas de forma indiscriminadas. No entanto, as mulheres sofrem problemas particulares. A pobreza causada pelo bloqueio faz com que 80% moradores de Gaza dependam da ajuda alimentar e que uma grande proporção deles sofra desnutrição e anemia.

Em Gaza, seja mulher ou homem, se sofre as mesmas consequências devido ao bloqueio e à ocupação. Nesta estrita faixa de terra é proibido sonhar com um futuro melhor, não é permitido ter a realização pessoal que o estudo e o trabalho proporcionam ao ser humano: o bloqueio imposto aos habitantes pelo “democrático” e “ moderno” Estado de Israel, transforma a vida das pessoas em uma prisão. Não flui a economia, não se realizam os projetos, não há acesso a cursos de mestrado e doutorado para os jovens universitários, as opções que existem são limitadas. Israel, há dez anos, proibiu os moradores de Gaza de estudarem na Cisjordânia. Assim como, o Egito durante o regime de Husni Mubarak( 1981-2011) impediu centenas de estudantes palestinos de solicitar bolsas de estudo em universidades estrangeiras, pois colaborava com o regime de prisão imposto por Israel e não permitia a saída dos jovens da Faixa de Gaza.

Os ataques selvagens e deliberados das forças israelenses às escolas em Gaza afetam mulheres e homens. E são a continuação do processo de asfixia proposto e executado por Israel para concluir a sua limpeza étnica. As limitações que as forças israelenses impõe às aspirações e desejos de uma grande massa populacional produz um sofrimento capaz de buscar soluções e vazão através da resistência, a esta cruel dominação e opressão.

A mulher palestina é a personificação da resistência, é forte, determinada, é o reflexo da constante luta do povo palestino, que sobrevive há 66 anos de ocupação e usurpação de seu território, de seus direitos universais, de seus sonhos e aspirações, de seu direito à soberania e à autodeterminação. É a mulher na Palestina que sofre com a morte ou prisão de seu marido ou filhos, é esta mesma mulher que tem que transformar a dor com a perda de seus filhos em força para continuar a resistir, a continuar a viver e continuar a ser a mola propulsora de toda a engrenagem familiar.

Em Gaza o ritmo da vida não é normal , as mulheres se adaptam a uma vida improvisada e anormal sob o bloqueio e a ocupação, muitas delas lutam no mundo pela igualdade no trabalho e para erradicar a violência de gênero. Mas para a mulher e a maioria das habitantes de Gaza, elas lutam pelos seus direitos mais básicos: uma vida sem privações. Viver em um pequeno pedaço de terra, onde as necessidades básicas como água potável, eletricidade regular, saneamento adequado e formas de laser não são atendidas, gera um sentimento de revolta , particularmente por ser provocado pelos contínuos ataques de um agressor ocupante e impiedoso, como é o caso de Israel.

O sofrimento das palestinas sob o sítio imposto aos moradores de Gaza há sete anos, durante e após o ataque de 23 dias de Israel no final de 2008, que deixou 1.400 pessoas mortas, entre elas 112 mulheres, ainda não se aplacou e as moradoras de Gaza continuam lutando para tentar acabar com sua dor e suas feridas causadas pela perda de filhos, maridos, familiares suas casas e seu sustento; e um novo ataque vem ceifar novas vidas e acabar com a ilusão desta população tão perseguida e amargurada por ter como vizinho um cruel usurpador de terras e de vidas como é Israel.

Mesmo as mulheres que tem acesso a educação universitária em Gaza convivem com problemas, para elas insolúveis, que são a pobreza e o desemprego causados pelo bloqueio. Relembrando que esta mulher é arrimo de família econômica, social e moralmente pois seu marido, pai ou irmão morreu , ou está preso, e ela necessita continuar cuidando de filhos, irmãos e mãe. As letais operações israelenses geram e intensificam a crescente pobreza com a qual convivem cotidianamente estas mulheres.
 A ausência de oportunidade de trabalho para mulheres formadas e especializadas geram um desespero e uma impotência que atinge mais de 40% da população feminina desempregada.
Este patético sítio que afeta o cotidiano de todos, afeta especialmente as mulheres. Nos últimos anos, cada vez mais mulheres foram obrigadas a assumir a chefia da família porque seus maridos foram assassinados, estão em prisões israelenses ou desempregados por causa do bloqueio. Mas a maioria delas não tem meios para ganhar dinheiro, optando por trabalhos como a venda de produtos, artesanatos, isto é, uma forma alternativa de trabalho.

Assistimos pela TV ao massacre em Gaza, nos horrorizamos com a destruição de prédios, casas, hospitais, além das escolas, creches e berçários, e nos perguntamos como farão para sobreviver estas mulheres às destruições causada por bombardeios israelenses, insensíveis a qualquer dor que tenham infligido à população. Como pode Israel esperar ter uma convivência pacifica com os palestinos quando se permite um massacre destas proporções?

Um informe do Centro Palestino de Direitos Humanos, sobre o sofrimento das mulheres de Gaza, destaca que as perspectivas não vão melhorar enquanto não terminar o sítio israelense e for permitida a atividade econômica normal. A consequência da terrível situação econômica conduz muitas mulheres e suas famílias a continuar caindo cada vez mais em uma profundo e atroz pobreza. Sofrem os horrores de uma guerra ilegal e agora vão buscar forças para sobreviver.

O recado que a mulher palestina envia ao mundo é: “Perdemos famílias e filhos e sofremos sob os bloqueios e ataques do exército de Israel. Carregamos todo o sofrimento de nosso povo, mas continuamos vivendo e resistindo”

 S.Paulo, 29 de agosto de 2014

*psicoterapeuta e pesquizadora de temas árabes, autora do livro” Imigração Árabe – 100 anos de Reflexão, Ícone Editora, 1985, S.P.





sábado, 27 de setembro de 2014

Aspectos psicológicos decorrentes da imigração sírio libanesa

por Claude Fahd Hajjar
  1. Imigração como fator de ruptura da continuidade

A imigração é a saída do habitat natural onde o sujeito foi criado e onde suas raízes estão fincadas. Portanto imigrar é desenraizar.

Desenraizar é deixar para trás todas as pessoas, fatos, localidades, história, a casa, a escola, as árvores, enfim a natureza na qual foi criado o sujeito – A quitanda, a fruta, o queijo, o sabor.
-As árvores, as flores, a natureza, as pedras, o cheiro e o tato.
- O mar, a mãe, o pai, suas relações e seus aconchegos o cheiro, o tato, o olhar, o sabor.
- A língua, , a metáfora, a piada, as histórias contadas por seu avô, os acontecimentos sociais, políticos, econômicos- deixa para trás o seu ouvir.
Assim, ao imigrar ele abandona , rompe , se afasta de seus cinco sentidos básicos que o constituem enquanto sujeito humano e que até aquele momento foram primordiais para ele. Vive sem se aperceber do luto, da perda, da melancolia do que fora obrigado a deixar para trás, mas que na realidade psíquica ele trás inscrito dentro dele, na memória, no inconsciente, na lalíngua conforme Lacan.


II-Como é vivida a experiência da imigração psiquicamente


O imigrante, nos primeiros tempos de sua chegada ao novo habitat encontra-se sob o impacto do novo, novo espaço, novos conhecimentos, e também uma nova língua. Neste período ainda não pode avaliar todas as dificuldades que o aguardam : ainda sob o efeito esfuziante da elação, está eufórico, sente-se acolhido, recebido , o centro das atenções
A fixação
O processo de fixação traz consigo as primeiras responsabilidades, as primeiras cobranças, e a necessidade de buscar por si só a sua independência: entra em contato com o desconhecido, no idioma, na localização e direção. Toma consciência da sua dificuldade de circular e se comunicar como na terra natal.
O esforço desprendido é grande para a captação e tradução e compreensão do novo cotidiano. É o primeiro momento em que ele toma consciência da necessidade do outro, o seu conterrâneo e também o seu interlocutor na nova sociedade. Ele se apercebe como dependente, portanto um sujeito já não tão “livre” quanto sua fantasia lhe iludia antes de imigrar. Imigrar antes significava partir, libertar-se, voar.
Imigrar hoje significa se adaptar-se limitar-se e fixar-se.


A natureza psíquica do ser humano possuí mecanismos próprios de auto - preservação do ”eu”.
Com referência aos acontecimentos externos, o ser humano possuí o seu ego ,o si mesmo, que desempenha a função de ir integrando o sujeito à nova realidade física e psíquica.
Papel do Ego:
O ego desempenha a função de:
  1. Armazena as experiências resultantes das experiências vividas - memória
  2. Evita estímulos excessivamente intensos ( fuga)
  3. Lida com os estímulos moderados (adaptação)
  4. Aprende a produzir modificações convenientes no mundo externo, em seu próprio benefício – ação
Para a busca da melhor adaptação à realidade, o imigrante se utiliza de mecanismos de defesa – capacidade de aliviar um pouco a dor do impacto de toda a nova pressão cultural na qual está inserido e do qual não conhece suas matizes essenciais. Esse novo habitat não se resume apenas nas novas pessoas, novas ruas, nova casa, novos cheiros, novos sons, novo tato ou novo olhar.
O mais forte e brusco na realidade é a ausência de tudo aquilo que ele não viveu. Naquele novo habitat, é a história pregressa da cidade, dos novos amigos, é o processo econômico, político e social que lhe são estranhos e estão ausentes de sua memória. Em termos de Brasil ele é limpo, branco, sem memória e sem história.
A sua história , a que carrega consigo é de um outro lugar , a experiência histórica pregressa dele, a sua Lalingua, as miçangas que formaram o seu “eu” até aquele momento são estranhas e muito diferentes do histórico e da história na qual agora está mergulhado. Sou estranho, sou estrangeiro, esta é a sua nova realidade.
As piadas, metáfora, a história pregressa daquela comunidade, daquela cidade, estado e país ele desconhece. Os acontecimentos sociais, políticos, econômicos, não estão em seu poder, ele não lhes tem registro, não estão de posse desse sujeito- imigrante .
Não tem registro, em sua memória, estão armazenados suas vivencias do lugar de origem, que servirão de base e suporte para a sua sustentação no novo habitat.
São os registros originais que se constituirão no seu repertório do mundo interno. Ele fará um esforço para neutralizar estes registros, para poder assim reescrever sua nova história . Começa aí o empenho para o domínio da nova língua e suas significações.


III-Diferenças individuais como fatores importantes para vencer o desafio da Imigração
Para alguns, a imigração se constitui num desafio a ser vencido e a nova sociedade escolhida para viver é vista como uma nova possibilidade de desenvolvimento e crescimento.
Para esta pessoa, que sabe lidar com o novo, a experiência será enriquecedora e sua utilização conduzirá a um melhor desenvolvimento e crescimento.


Como é o perfil psíquico deste sujeito integrado?


A maturidade psíquica é um fator primordial o que significa ter os pés no chão, saber lidar com a realidade sem exagerar e nem diminuir os fatos e os acontecimentos. Se utilizar menos dos mecanismos de negação, fuga e se utilizar mais dos mecanismos de adaptação e de transformação do mundo externo através do trabalho e integração. A maturidade psíquica implica numa boa distribuição de energia, para os múltiplos papéis que o sujeito desempenha no seu meio familiar, profissional e social. Carregar mais do que o necessário um dos papéis, dar-lhe mais peso do que o necessário naquele momento é sintoma e consequência de uma desorganização mental interna.
Por exemplo, o imigrante tende mais a enfatizar, priorizar o trabalho, o econômico, e muitas vezes a abandonar o afetivo e o familiar( neste caso não só o imigrante).Este comportamento tende a desequilibrar o seu cotidiano e certamente gerará uma desorganização que irá ser sentida por ele e pelos que o cercam. Saber distribuir o melhor possível a energia e dar a devida prioridade a cada papel é o ideal a ser atingido por cada ser humano.
O sujeito maduro saberá melhor que outros a arcar com essa tarefa e cumprirá melhor seus propósitos, diferente daquele, menos desenvolvido e menos preparado emocionalmente.
Para o imigrante frágil emocionalmente, e logo menos desenvolvido, esta experiência poderá ser vivida desde o difícil até o traumático.
Situações de medo, temor, reticências, isolamento, depressões profundas, negações da realidade e refúgio no álcool, na droga e no jogo são alguns dos possíveis comportamentos encontrados em diferentes indivíduos que assim manifestaram a sua neurose em decorrência da imigração.
Além desses sintomas mais fortes, alguns ainda podem se comportar com mecanismos de fuga e ou negação frente às novas experiências a serem vividas.

As novas gerações na imigração


O filho do imigrante trás em si uma porção de marcas, nele impregnadas graças ao processo adaptativo vivido pelos pais. O filho tende sempre a se mostrar principalmente na adolescência, em oposição ao pai. Por exemplo:
Filho de pai palmeirense pode querer torcer pelo São Paulo.
Pai politicamente de direita, filhos de esquerda. Porque?


Essas diferenças manifestadas através do confronto pai x filho, primeiro servem para promover a separação simbólica necessária entre identidade do pai e do filho que o amor demasiado pode comprometer.
Na questão política, o que temos notado é que os filhos se identificam com facilidade com a população local e suas aspirações. Enquanto que os pais se identificam com a continuidade, o poder constituído, com a linha burocrática, clássica, com o conservadorismo...
Sabemos que os filhos mantém uma relação mais sadia com o seu
meio, conquistando nele espaços e posições onde podem expressar suas potencialidades e realizar-se pessoal, social e politicamente.
Enquanto os pais sentem este espaço um tanto quanto distante deles e de suas aspirações. A relação do pai imigrante é com os outros imigrantes, com quem naturalmente se identifica e à exceção da relação profissional que exige um contato com todas as camadas da população, o imigrante restringirá seus contatos aos parentes, outros imigrantes como ele, representantes diplomáticos e oficiais e a todas as pessoas que de uma forma ou outra aprendem a superar melhor o luto resultante da imigração.
Detectamos aí o início do conflito familiar na imigração.
Os pais com uma formação e com dificuldades muitas vezes de passa-la para os filhos.
Filhos necessitando se afastar dos pais e de sua história diferente para serem aceitos no seu meio escolar, universitário, entre os amigos que viriam a conquistar.

ALGUNS DOS SINTOMAS EMOCIONAIS VIVIDOS PELOS FILHOS DOS IMIGRANTES
  1. Dificuldades de aprender os dois idiomas, resultando no gaguejar, por ser forçado a falar no idioma dos pais ( três anos de idade)
2-Esquecer o idioma paterno por negação da própria origem e de suas tradições.

3-Os filhos de imigrantes sentindo vergonha dos pais ao vê-los se expressar no idioma local com forte sotaque árabe.

4-Os nomes que são carregados dos significados da terra de origem dos pais , é motivo de chacota para os filhos... muitos quiseram mudar seus nomes.

5-Os pais com dificuldades de chegar aos filhos e criando assim uma barreira intransponível no relacionamento principalmente com o filho adolescente. Este vazio de relacionamento, e o afastamento entre pais adolescentes pode ser perigosamente preenchido por vícios muito presentes no mundo escolar e adolescente.

6- Esquecimento brusco da língua paterna e a negação dos valores importantes dos pais e da história pregressa dele e de sua terra e de sua família.

ALGUNS DOS COMPORTAMENTOS MAIS COMUNS ENCONTRADOS NOS IMIGRANTES

- Dificuldades de se aprender a língua local;

- Negação da nova sociedade onde se escolheu para viver;

- Resistência a se deixar cativar pelo novo habitat por medo da perda da individualidade e da própria identidade;

- Dificuldade em se manter novos relacionamentos por preconceitos sobre o povo daquela localidade.
( As diferenças culturais, são aspectos normais em decorrência do estilo e da natureza de cada povo e de cada etnia. Quando tomamos contato com qualquer cultura diferente da nossa, a primeira reação é de ter um conceito antecipado, por isso chamado de pré – conceito sobre os aspectos diferenciados da nossa cultura.)

_ Contínua reafirmação da identidade nacional original demonstrada na comparação compulsiva entre o aqui ( terra da imigração)e o lá ( terra de origem).

- a dificuldade em integrar-se corpo e mente aos 5 sentidos naturais- o paladar, o olfato, o tato, a visão, e a audição- quando esta dificuldade estiver vencida, o desafio da imigração foi superado.

- Quando o imigrante consegue se comunicar com os cidadãos ao seu redor, com o novo idioma adquirido, ao invés de se tornar participante e ativo no processo político local, ele tenta se utilizar de seus novos relacionamentos em favor da causa de seu país de origem.

Devo salienta que muitos desses sintomas e desajustes não são tão somente decorrentes da imigração. Cada caso é um caso particular e deverá ser tratado com a sua singularidade.
Porém a imigração é um enigma a ser decifrado e integrado ao código do filho. Isto é, caberá aos pais, professores e psicoterapeutas conduzir este jovem pelo caminho trilhado pelo pai, coloca-lo em contato com o seu recalcado com o que ele precisou esquecer e que considera a causa essencial de seu infortúnio, de sua diferença. 
Levá-lo a avaliar o seu passado a sua família, a sua história e a de seus pais , a avaliar e a tomar contato com a sua tradição, pois será no ato de resolver, de separar, de escolher, de peneirar, o que ele deve descartar ou aquilo que ele deve manter, do antigo, da tradição, da herança, trabalhando para integrá-la no seu cotidiano, na sua vida atual.

São Paulo,22 de junho de 1989
Claude Fahd Hajjar
Palestra no Centro Cultural Árabe Sírio




























segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Pesquisadora mostra o outro lado do conflito na Síria


A maioria dos sírios deseja a manutenção da ordem e da paz na Síria e acredita que apenas o Presidente Bashar Al Assad pode manter esta ordem e fortalecer as instituições do país. A Síria que eu conheço e que visito e convivo há mais de 35 anos tem uma população que tem um alto grau de politização e conhece muito bem as dificuldades e os estigmas que vivem tanto o povo, quanto o governo da Síria. Por convicção, defendem o princípio da soberania nacional, da autodeterminação e da não ingerência estrangeira.


O cidadão sírio tem consciência e critica a corrupção e morosidade da atual máquina burocrática deste governo da Síria; deseja reformas, deseja o combate à corrupção, mas entende que esta luta deve se processar de forma pacífica, as mudanças têm que ser construídas e o governo de Bashar Al Assad está empenhado nestas reformas.
 
A população síria está acostumada com conforto, segurança, estabilidade. País predominantemente agrícola, tem no trigo, algodão de fibra longa e no azeite a base de sua produção. Em seu subsolo, possuí petróleo e gás. Enfrenta problemas políticos que impedem a modernização de suas refinarias e a prospecção de suas riquezas.
 
A vocação de hospitalidade somada à rica e milenar história da Síria despertou o setor de turismo nos últimos anos. O investimento em estradas, em hotelaria e em serviços, vinha fomentando o turismo do mundo inteiro para a Síria. É um país distribuidor de bens e serviços para todo o mundo árabe seja da Península Arábica, seja do Norte da África.
 
Não é uma sociedade perfeita. Transitou do socialismo ao quase capitalismo em menos de 12 anos. A Síria dos últimos 42 anos saiu da miséria e do feudalismo para um socialismo e uma prosperidade cada vez mais visível em cada um de seus cidadãos. O país mais laico do Oriente Médio teve na educação a base do seu desenvolvimento.
 
Foi este regime, no período do pai Hafez Assad que conseguiu implantar a reforma agrária (anos setenta) e os Sírios sunitas, grandes proprietários de terras e pertencentes ás famílias tradicionais, imigraram para a Europa e EUA. Alguns dos filhos destes sírios sonham em retornar… Mas apenas para promover a deposição do regime e ocupar o poder.
 
A Síria hoje tem uma população de 22 milhões de habitantes; a maioria de 70% é de muçulmanos sunitas; e os demais são 13% Alauítas; 12% de cristãos; e 5% de drusos, turcomanos e outros.
 
Os grupos rebeldes que foram cooptados pelo eixo EUA, Israel, OTAN e CCG [Conselho de Cooperação do Golfo], não representavam nem 1% da população síria, no início das manifestações. Mas com o acirramento dos enfrentamentos, com o dinheiro rolando solto e com as armas sendo distribuídas em abundancia, e recebendo aplausos da comunidade internacional, sentiram que deveriam lutar até depor o inimigo: o governo do Presidente Bashar Al Assad….
 
Uma luta cuja motivação é de natureza econômica e política, foi sendo construído e acirrado nas camadas de baixa renda e transformado em conflito sectário. A mídia-empresa ocidental funciona como papagaios da retransmissão das agências de notícias ocidentais. Estou com saudade de nossos analistas políticos, de nossos correspondentes e do verdadeiro jornalismo.
 
A IMPRENSA no ocidente é teleguiada pela leitura equivocada dos EUA e OTAN, e desde o início do conflito, usou a comunicação para desinformar e para doutrinar o cidadão brasileiro, apoiando e retransmitindo apenas a opinião dos rebeldes. A imprensa brasileira subestima a inteligência do telespectador e oferece o Fast Food pronto que as agências de notícia transmitem. Foi e tem sido parcial e irresponsável ao veicular informações falsas para referendar seus conceitos.
 
O que observamos na imprensa do ocidente é sempre um jornalismo dirigido e copiado das agencias de notícia como a BBC, France Press e Reuters, todos copiando a Al Jazeera (Qatar) e transmitindo apenas as notícias do Conselho Nacional Sírio, Exercito Livre Sírio e do Observatório Sírio dos Direitos Humanos (um cidadão sírio em Londres, posicionado na sua lojinha com um computador e retransmitindo todas as mentiras e barbaridades que a TV Al Jazeera lhe pedia).
 
Temos relatos das montagens de cenas, blefes, cenas do Iraque como sendo Síria, helicóptero do Afeganistão como sendo Sírio. Montagem de sons dos ataques. Durante os ataques em Homs a TV Síria retransmitia vídeos amadores que captavam os bastidores das gravações que eram encomendadas pela Al Jazeera.
 
A estratégia da imprensa foi focar na ”Primavera Árabe da Praça Tahrir”, este movimento popular emocionou e contagiou os jovens no mundo todo e em especial nos países árabes; e como rastilho de pólvora seguiu para a Líbia e em poucos dias foi votada a moção no Conselho de Segurança da ONU que autorizou a criação de uma zona tampão na Líbia, com a alegação de “responsabilidade de proteger” que permitiu a entrada da máquina de matar da OTAN e aliados que lutaram junto com a Al Qaeda em Benghazi e depois em toda Líbia. .
 
A guerra humanitária da OTAN e aliados já matou mais de 150 mil pessoas na Líbia. Criou um caos quase impossível de ser reordenado; destruiu a infraestrutura de um povo que vivia bem, com garantias de toda a espécie assegurada pelo governo. Não considero o governo de Muamar Al Kadafi o ideal, mas este é o país que eles puderam construir e prosperar.Perdeu o povo Líbio, perdeu o povo africano a quem Kadafi ajudava e venceu a França e seus aliados com os novos contratos para se apossar  das bacias de petróleo.
 
A quem a OTAN e seus aliados vieram proteger? A seus próprios interesses.
 
A opinião pública mundial parou pasma com a chamada “primavera Árabe”. Apesar da experiência acumulada e do cuidado de muitos de nós, queríamos crer que havia de fato uma primavera árabe… Que ilusão! Bastaram poucos dias para assistir pela TV que o cenário preparado já tinha um script pronto e manipulado na Líbia através do Sarkosy desde outubro de 2010 (quatro meses antes da entrada da Líbia na onda da “Primavera”).
 
No Egito, ocorreu o mesmo, e tomamos conhecimento da presença de agentes americanos junto aos manifestantes na Praça Tahrir, e que chegaram a ser detidos pelas forças de segurança no Cairo. A diplomacia americana, resolveu o episódio que sumiu da imprensa, e em seguida,  convidaram a representação da Irmandade Muçulmana em quatro de Abril de 2012, a visitar os EUA e acertar a sua atuação no futuro governo no Egito.
 
Esta preparação com armas e com treinamento militar teve início de fato depois do ataque perpetrado por Israel contra o Líbano e defendido bravamente pelo Hezbollah em julho de 2006. Se já havia uma intenção dos EUA em destruir o governo de Damasco, passou a ser um ponto de honra para EUA e Israel: Afinal, os mísseis que foram usados pelo Hezbollah e pelo Hamas foram fabricados e fornecidos por Damasco.
 
Na Síria em janeiro de 2011 a embaixada Americana recebe como embaixador o agente americano Robert Stephen Ford, assessor do especialista em inteligência o americano John Negroponte que, no Iraque em 2004, quando foi encarregado de aplicar o plano de destruição usado em San Salvador e depois replicado no Iraque.
 
O objetivo agora era instaurar o caos na Síria: ele conseguiu em 60 dias transformar a Síria de um país pacífico, seguro, tranqüilo e confiante, em um país instável, inseguro e em guerra de destruição e desgaste que já dura 16 meses.
 
A Rússia e a China, signatários do tratado de Xangai, e membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, após os acontecimentos na Líbia e a licença para destruir que foi concedida à OTAN, viram que o Ocidente, está desestabilizando a região do Oriente Médio e avançando em áreas estratégicas para o Grupo de Xangai. A Rússia e China defendem seus próprios interesses ao defender os interesses do povo e governo Sírio. Ao mesmo tempo em que a queda de Damasco pode balcanizar toda a região e envolver atores regionais que até agora permanecem fora do conflito.
 
A Rússia tem relações privilegiadas, com a Síria de longa data, que lhe possibilita a presença de uma Base Militar Russa no Porto de Tartus. Somam-se a isto, uma relação afetiva com a forte e representativa população Cristã Ortodoxa da Síria.
 
Com a China, a relação Sino- Síria tem base em tratados culturais, artísticos, econômicos e políticos. Hoje, com o isolamento do Irã, quem está adquirindo o petróleo iraniano é a China, inclusive comprando-o por um preço abaixo do mercado, e com uma negociação em moeda local. Ganha neste negócio a China e o Irã… Perdem os EUA e o dólar americano, e perde também a União Européia…
 
A quem interessa esta luta sectária na Síria de muçulmanos Sunitas X muçulmano Xiitas (que dividem o governo com Cristãos, drusos e Alauítas)? Aos países do Golfo: Qatar, Arábia Saudita e Turquia, aliados e interpretes do desejo dos EUA, Israel e OTAN. Por que, ao derrubar a Síria, o caminho fica livre para derrubar a Resistência e o Hezbollah no sul do Líbano e para atingir o Irã. Portanto, o objetivo é ter o caminho livre para o Irã e de lá para os gasodutos e oleodutos de toda região.
 
Outro interesse dos EUA e aliados é a mais importante bacia de gás que está na costa mediterrânea da Síria: ora, se o século XX foi o século do petróleo, o século XXI é o século do Gás. Esta disputa já está lançada entre americanos, russos e alemães.
 
Claude Fahd Hajjar
Vice-Presidente da Fearab América (Federação de Entidades Americano-Árabes)
Autora do livro “Imigração Árabe 100 anos de Reflexão”

Fonte: IAnoticia julho 2012

Síria: EUA, OTAN e CCG (Qatar e Arábia Saudita) Aliados Para a Destruição Da Síria

As duas explosões que ocorreram em, 10 de maio de 2012, em Damasco às 7e30 no horário local, geraram revolta e indignação na comunidade internacional, temor e tremor na população síria e inúmeras reflexões e questionamentos na população de origem síria na imigração.
 
É temerário pensar que estas ações poderiam ter sido executadas por cidadãos Sírios opositores ao Governo; assim como, é inverossímil crer que os organismos de segurança do governo do Presidente Bachar Al Assad teriam algum benefício com semelhante ação.
 
A tragédia que assistimos pela TV ontem deve ser atribuída a pessoas, entidades ou governos interessados em prejudicar a sociedade síria, impedindo que se estabeleça o diálogo nacional proposto pelo CS da ONU. Tal diálogo só poderá ser levado a cabo se for respeitado por todas as partes do conflito. Caso isso não seja possível, o CS da ONU ameaça intervir. A impressão que temos é que, justamente quando a Síria está concluindo uma eleição para o Parlamento e concomitantemente, recebendo os observadores da ONU, os ataques se intensificam como provocações que buscam a instabilidade que justificaria uma intervenção externa.
 
Mas quem deseja a guerra ao diálogo?
 
Sabe-se através das agencias de notícias, que a Turquia deu abrigo e treinamento ao “ exercito livre sírio” na fronteira com a Síria. E a agencia noticiosa da Síria, mostrou o grande número de sequestros de civis, assim como, franco atiradores posicionados em Homs, que tinham como único objetivo atingir oficiais, personalidades, e jovens que se negavam a empenhar armas e se mantinham solidários ao governo ou dentro de uma oposição que apoia o diálogo. 
 
As agencias de notícias apreenderam armas e munições que vinham da Líbia, e seriam recebidas através do porto do Líbano e contrabandeadas para a Síria. Ainda através das agencias de notícias sírias e libanesas, temos conhecimento da presença de mercenários sauditas (salafitas) e outros, que estiveram presentes na Líbia e no Egito, estão agindo na Síria, e cooptados ativistas e opositores ao regime sírio mediante salários mensais.
 
Aqueles que lutam contra o diálogo nacional sírio só podem ser considerado criminosos a serviço de governos que desejam a morte de cidadãos sírios, a desestabilidade de seu governo e plantar o temor no cidadão sírio.
 
Nada justifica esta carnificina que se instalou na Síria e que vem sendo financiada com o dinheiro dos países do CCG (Conselho de Cooperação do Golfo) e seus aliados, disposto a depor o Governo Assad à revelia da opinião do povo Sírio.
 
Que exista oposição ao Governo, sim concordamos e consideramos salutar.
 
Que exista uma disputa política e um Dialogo Nacional para que, os muitos erros, sejam sanados, concordamos e consideramos assertivo. 
 
Mas por que da destruição de prédios, e a morte de civis inocentes? 
 
Crianças e jovens a caminho do trabalho e escolas?
 
Gigantescas explosões em bairros residenciais e centrais? 
 
O objetivo destes terroristas e os governos enfermos, que os apoiam é levar a instabilidade ao povo de Damasco. Ameaçar as grandes cidades. Criar o caos e a desordem e minar a estrutura da sociedade síria.
 
O Império não aceita ser desafiado.
 
Tudo começou em 2003 quando o Presidente Bashar Al Assad não aceitou ser aliado dos EUA de George W. Bush e Dick Cheney na invasão ao Iraque.
Foi decretado aí o final do governo Al Assad. 

Ou o governo de Bashar Al Assad torna-se aliado do governo americano e da OTAN na Invasão ao Iraque, e colabora com a destruição do governo, povo e da infra- estrutura do Estado Iraquiano ,ou, estaria decretado o seu fim.
 
Foi em 29 de setembro de 2003 que o governo americano, convocou uma conferência em Washington dedicada ao futuro da Síria, da qual participaram personalidades e representantes de partidos políticos sírios que atuavam nos EUA. Foi confiada a tarefa, a estes opositores, de buscar alianças com os seus pares, opositores Sírios na Europa e na Síria. Começa aí o financiamento da Oposição Síria. (L’expresso,pg.78e79,5 febbraio 2004, di Dina Nascetti)
 
Em 2003, a Síria vivia o início de sua abertura política e econômica, que resultaram no afrouxamento da vigilância de suas fronteiras, por onde as armas financiadas pelos EUA, CCG e OTAN com os seus aliados no Líbano e na Turquia, tornaram real a posse de armas e a luta armada.
 
A “Primavera Árabe” teve início em janeiro de 2011 na Tunísia, inspira o Egito, e se estende para a Líbia e atinge a Síria.....Em menos de três meses se espalha pela porção mundo árabe não alinhada aos EUA, mas – Pasmem! - não consegue contagiar a Arábia Saudita, a Mãe de todas as ditaduras do Mundo Árabe, onde, apenas para citar um exemplo, as mulheres não podem dirigir um automóvel ... O fato da primavera árabe não contagiar a Arábia Saudita é um grande indício (porém não o único) de ter sido um movimento fabricado por Países do Ocidente. Mas para encobrir o que?
 
A Criação do Estado da Palestina
 
Foi no dia 1 de dezembro de 2010 que o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, declarou a necessidade da Criação do Estado da Palestina com as fronteiras, anteriores a 1967.
 
Esta declaração do Brasil, que foi o primeiro país a dar o seu apoio á criação do Estado da Palestina foi seguida por outros 140 países,; e que fora referendada em 23 de setembro de 2011, quando a Presidente Dilma Russef, fez o seu histórico pronunciamento, da primeira presidente mulher a usar o pódium da Assembleia Geral da ONU. 
 
A Campanha pelo Estado da Palestina Já , estava sendo articulada pela diplomacia do Presidente Abbas.
 
 Esta ação afirmativa da Autoridade Nacional Palestina, não interessa a Israel, e não interessando a Israel, não Interessa aos EUA; e não interessando aos EUA, não interessa à OTAN... e logo também aos seus aliados no Golfo...
 
Com a “Primavera árabe” mudaram o foco do mundo...
 
O foco saiu do Estado de Israel, país antidemocrático, de governo não-laico, segregador, preconceituoso e racista, opressor e usurpador das terras Palestinas e a quem não interessa a criação do Estado Palestino. 
 
O novo foco de atenção do mundo foi dirigido aos países árabes não alinhados com Washington, que sempre denunciaram a política de dois pesos e duas medidas que o Ocidente Norte Americano e seus aliados empregam na sua relação com o Estado de Israel e o povo Palestinos.
 
Uma Primavera que nunca existiu , pois, desde o início foi estimulada e monitorada....No Egito pela infiltração da Cia junto à Fraternidade Muçulmana ( que foi convidada a Washington e recebida na Casa Branca em 5 de abril de 2012; na Líbia orquestrada por Sarkozy desde outubro de 2010; e na Síria como vimos acima, com suas sementes remontando a 2003 e à invasão americana ao Iraque.
 
Vamos aguardar os acontecimentos, mas queremos crer que o mundo não é mais o mesmo desde o veto da China e da Rússia em 4 de fevereiro de 2012 no Conselho de Segurança da ONU.
 
Fica registrada aqui a nossa indignação, com todos aqueles que acreditam que podem substituir, o desenvolvimento, o fomento à criação, a produção e ao bem estar e a felicidade dos povos ; pela guerra, e assim destruir a soberania e a dignidade das nações . 
 
Os últimos quarenta anos da Síria puderam criar um grande bem estar, progresso, educação, saúde e moradia para a maioria da população Síria. Faltava muito... Sim, sempre falta em todos os países do planeta, mas não vai ser através dos ” Senhores da Guerra” e da destruição que iremos implantar o bem estar e a paz. 
 
A receita dos “Senhores da Guerra”, invadir para proteger, levaram o Iraque a retroceder 40 anos. A ação na Líbia resultou na morte de 140mil cidadãos e conduziu a um retrocesso de outros quarenta anos.
 
Não podemos permitir que esta tragédia também seja o destino da Síria.
 
Sim ao Dialogo Nacional! Sim à deposição de armas! Que todas as responsabilidades sejam apuradas. 
 
A tragédia de 10 de maio de 2012 não poderá ficar impune!
 
Claude Fahd Hajjar, São Paulo,11 de maio de 2012
Psicóloga, psicoterapeuta e
pesquisadora de temas Árabes


Gibran Khalil Gibran " O americano árabe do Líbano"

GIBRAN KHALIL GIBRAN “ O Americano Árabe do Líbano”*
Nascido na localidade de Bsharre, Líbano, em 1883, viveu em seu corpo as marcas da história de seu povo, inserido dentro de um contexto econômico político que determinou o comportamento imigratório de libaneses, palestinos e sírios nos últimos anos do século XIX até os primeiros anos do século XX.
Com doze anos de idade, Gibran emigrou para os Estados Unidos da América em 1895, acompanhando a mãe e os irmãos. Tentativa corajosa de uma mulher que buscou na expansão da América a realização da potencia reprimida de seu povo.
Amargava o povo do Crescente fértil a consequência do então domínio do Império Otomano, e , potencialmente visado como polo de negociações dos interesses internacionais que destilavam as divergências internas das diferenças nacionais árabes, usadas como argumento para dar consistência a outros projetos que a Europa e América necessitavam orquestrar e executar.
A moderna história imigratória do povo árabe, seja ele libanês, palestino ou sírio coincide com o nascimento da trajetória de Gibran Khalil Gibran, enquanto imigrante e poeta.
Ao mergulhar na obra e contribuição artística de Gibran, estamos decifrando o inconsciente coletivo de um povo que clama pela liberdade, pela justiça e pela busca de realização de sua potencialidade recalcada e reprimida por séculos de usurpações que remontam ao século XII quando da decadência árabe na Europa e consolidada no século XV com a ascensão do Império Otomano, que estancou o pouco de sangue e vitalidade que ainda irrigavam as veias da região árabe da Síria de então, incluindo nelas os atuais Estados do Líbano, Palestina e outros.
Gibran foi o emergente psíquico, a voz poética, a sensibilidade artística, o livre pensador cujas raízes estavam fincadas no velho mundo, e cujas asas o conduziam ao futuro, à América.
Em suas veias corria o sangue de uma multiplicidade de culturas como a fenícia, aramaica, assíria, pérsica, grega, árabe e outras.
Ao imigrar e atravessar o Atlântico transportava em sua bagagem a tradição e a história do mundo antigo, deixando para trás suas divergências, suas mágoas e seus nóz mal resolvidos.
Na amplitude do espaço e riqueza americana, encontra o habitat ideal de expansão e de desenvolvimento de suas potencialidades, que lhe eram negados no velho continente.
Na América, descobre outra riqueza cultural, resultante do intercambio de raças e culturas que por milênios transitaram entre Ásia, África e Europa. A bagagem científica, tecnológica, política e administrativa do velho mundo fora uma valiosíssima aquisição que a América acabara de receber e que antes desconhecia.
Este período não reservou apenas farturas e riquezas; doenças, epidemias, revoltas e inúmeras dificuldades foram vividas, tanto pela população autóctone como pelos colonizadores e imigrantes. Da mesma forma que a mãe natureza atraí e irradia vida e plenitude, ela também expulsa e rejeita muitos de seus filhos.
O poeta e livre pensador Gibran Khalil Gibran, desenvolve sua obra na mesma medida do desenvolvimento e aperfeiçoamento do seu Eu. Seus biógrafos coincidem em posicionar os diferentes períodos que marcaram sua produção artística e literária.
No início de sua obra encontramos o Árabe Libanês Gibran que escreveu no seu idioma natal os seus dois primeiros períodos, o “Romântico” e o “Revolucionário”.
É o Americano Árabe, Gibran, já amadurecido, mais fecundo e universal que vai escrever em inglês, e assim internacionalizar a sua produção nos outros dois períodos denominados de o“ Filósofo Desiludido” e o “ Sábio Supremo”.
No “Filósofo Desiludido”, Gibran, produziu “ O Errante”, “ O Louco”, “ O Precursor”, “ Os Deuses da Terra” entre outros. Neste período Gibran em seu próprio ser, ver, sentir, pensar e fazer, decífra a essência humana. Ao atingir o âmago da essência do ser, ele delata e expõe a outra face do humano; Gibran se revela como sujeito, humaniza-se, escreve sua literatura com o amargor sentido pelo seu próprio corpo e com sua alma filosófica; inspirado em Nietzsche, o filósofo alemão e na imagem de Zaratustra, o “super homem” nietzschiano.
É durante este período universal do “ Filósofo desiludido”, que Gibran atinge o mais profundo do Ser; ao delinear a cartografia da alma humana e se aprimorar em sua essência nos revela a natureza sem artifícios e sem máscaras. Ele despoja o ser humano daquilo que cultura e civilização lhe inflingiu e resgata a sua potência, sua natureza primeira, viril e dionisíaca.
O resultado desta experiência foi o período áureo conhecido como “O Sábio Supremo” que nos legou “ Areia e Espuma”, “ O Jardim do Profeta”, “ Jesus, o filho do Homem” e “ O Profeta”, a obra mestra, traduzida para mais de dez idiomas, a mais vendida em todo o mundo, livro de cabeceira de milhões de pessoas.
Gibran, o americano árabe libanês de Bsharre, inundou as livrarias, as almas e o espírito de milhões de leitores, influenciou gerações com textos poéticos que são a base da psicanálise de Freud. Quem leu com atenção “os filhos”, “o Matrimônio”,, “ o trabalho”, e outros de seus textos de “O Profeta”, certamente terá captado o profundo teor psicanalítico de sua obra.
Gibran foi o feliz encontro entre Oriente e Ocidente, e foi o fruto maior da contribuição árabe ao mundo americano. Graças a sua experiência como imigrante, que tivemos a oportunidade de colher os saborosos frutos desta vivência. Vivência que o conduziu a unir este privilegiado nível de atualização a uma sabedoria milenar.
Esta maravilhosa química, é o resultado do intercambio de raças e culturas que a moderna história imigratória dos povos árabes do velho continente trouxe a este maravilhoso mundo da América.
Claude Fahd Hajjar São Paulo, 17/1/2013
* Por ocasião da inauguração do monumento a Gibran Kalil Gibran, promovido por Fearab América e a Fundacion Los Cedros, o texto original foi traduzido para o espanhol e apresentado em Buenos Aires, 9/2/1993